TRABALHO E PRODUÇÃO SOCIAL

Um tema de suma importância para o entendimento de qualquer formação social é o trabalho. Nas sociedades ditas tribais nota-se, em um primeiro olhar, uma economia denominada de subsistência, com uma divisão simples do trabalho. Desse modo, quando um desses aglomerados humanos descobre um meio de acelerar a produção utilizando-se de um artefato qualquer, não existe uma tendência à acumulação do excedente, e sim de um redimensionamento do tempo que passa a ficar ocioso para a realização de outras atividades da tribo. Os critérios de divisão do trabalho são, no mais das vezes, o sexo e a idade, e pode-se falar assim, utilizando uma terminologia durkheimiana, em uma semelhança funcional que dá origem, nesse mesmo autor, a uma solidariedade do tipo mecânico.

Um segundo tipo histórico de sociedade é o que Marx denomina de Modo de Produção Antigo, marcadamente exemplificado pela sociedade greco-romana. Surgem, nesse modelo, as noções claras de propriedade e de acumulação, e as relações de trabalho são basicamente escravistas. O escravo, no entanto, possui um status bem diferente daquele que conhecemos nas relações brasileiras até o século XIX, pois o povo que perdia a guerra servia àquele que a vencia, e as mais diversas posições sociais eram exercidas por indivíduos escravizados, que mantinham em certos casos, relações de amizade com seus senhores.

No mundo grego, principalmente, o trabalho era dividido em três modalidades, quais fossem: o labor, o poiesis e a práxis. O primeiro era o trabalho braçal, realizado geralmente por escravos. O segundo era o trabalho artístico, desenvolvido pelos escultores, poetas, pintores ou outros artistas, e a última era a função política, realizada pelo cidadão. É evidente que a função considerada mais importante era a realizada pelos políticos, que dizia respeito, como o próprio Aristóteles afirma em sua obra Política, do Bem Comum. Nota-se claramente uma elitização do trabalho intelectual que permeará toda a história do ocidente.

O período compreendido com Idade Média no ocidente conheceu uma organização social estamental, após a crise e decadência do modelo escravocrata. As relações passam de escravistas para servis, e a honra, a tradição, a palavra, os rituais, a compor a estrutura fundante de um modelo que perdurou por séculos. O servo tinha para com o senhor obrigações que, no entanto, encontravam no outro a reciprocidade, ou seja, as relações de responsabilidade existiam em ambas as partes. Desse modo, enquanto o servo deveria cultivar as terras senhoriais ou mesmo auxiliar na defesa do feudo em casos de ameaça externa, o senhor deveria oferecer as mínimas condições de vida para o camponês. Vale ressaltar também que as relações de vassalagem e suserania não existiam somente entre esses dois grupos, mas eram elementos estruturantes de todos os demais âmbitos da vida.

As funções sociais, na idade média, também são divididas de forma muito fundamental em três elementos básicos: a defesa do território, organizada pelos nobres, a sustentação econômica do meio social, de responsabilidade do servo por meio do trabalho braçal, e a função espiritual de salvação da comunidade como um todo, realizada pelo clero. O trabalho braçal é compreendido como uma forma de castigo corporal (tripalium era um instrumento utilizado para a tortura), e esse discurso, difundido acima de tudo pela igreja católica, fundamentou esse conjunto de relações sociais durante a maior parte do tempo em que as mesmas existiram.

Por último, após a revolução industrial se consolida o denominado modo de produção capitalista. Baseado na lógica da acumulação intensifica ainda mais a noção de propriedade privada dos meios de produção de riqueza e baseia-se em relações de trabalho livre e assalariado. A noção de reciprocidade praticamente desaparece do vocabulário econômico, as desigualdades sociais são intensificadas, o antagonismo de classes parece chegar ao seu ponto máximo. É nesse modelo que se pode falar em um possível desencantamento do mundo, em Max Weber, de uma solidariedade baseada na interdependência das funções diferenciadas responsável pela coesão social, no caso de Durkheim, ou no fenômeno de alienação, exploração ou coisificação do homem, na doutrina marxista de forma geral. Seja como for, é sobre o capitalismo que iremos nos debruçar mais detalhadamente a partir desse momento de nosso estudo.

1- Formas de gestão da produção social:

Após a Revolução Industrial os avanços tecnológicos foram constantes, assim como o foram as manifestações populares contra o caráter altamente excludente do sistema capitalista. Mas foi no fim do século XIX e no início do século XX que notoriamente a produção no capitalismo foi pensada de forma mais sistemática.

Uma primeira forma de gestão do trabalho foi a que hoje é denominada de Taylorismo, e foi desenvolvida principalmente nos primeiros anos do século passado. Frederic Winslow Taylor era um puritano, de família relativamente abastada, que foi impedido de seguir nos estudos superiores por causa de problemas visuais. Desse modo, sem poder estudar, e condenando sobremaneira a ociosidade, o jovem Taylor começa a trabalhar. Desde cedo passa a observar a conduta do operário norte-americano, e percebe que o mesmo não produzia aquilo que estava dentro de suas capacidades. Qual seria o motivo para a indolência da classe operária? Taylor aparentemente encontrou a resposta.

Nesse período, o trabalhador da indústria metalúrgica nos Estados Unidos tinha ainda bastante domínio sobre as técnicas de produção, e por isso impunha certo ritmo para o trabalho fabril. Como o patrão ficava na dependência total do operário, tinha muitas vezes que se sujeitar às exigências salariais e ficava impedido de agir de maneira mais dura com relação aos trabalhadores. As organizações de classe começavam a aparecer no cenário empresarial de maneira mais efetiva. É nesse momento que Taylor percebe onde se encontra a força do empregado: ele sabe. E é também então que o estudioso da gestão do trabalho adquire a ideia que seria a chave para todo o seu pensamento sobre a organização fabril: o operário não é pago para saber, e sim para fazer. É desse modo que o jogo de poder começa a ser modificado no interior do espaço fabril norte-americano, modificação essa que em pouco tempo se alastraria pelo mundo ocidental.

A partir desse momento Taylor inaugura uma maneira de estudar as formas de organização fabril existentes e, acima de tudo, de melhorá-las. Montou laboratórios no interior de diversas empresas realizou estudos detalhados de como eram realizadas as várias funções a serem desempenhadas nas fábricas, e chegou mesmo a fazer pesquisas na área de desenvolvimento de materiais mais adequados para as ferramentas no período. Desses estudos, que lhe resultaram um péssimo relacionamento com a classe operária, o estudioso compôs um conjunto de procedimentos básicos que demarcaram uma nova etapa para o sistema capitalista, principalmente na sua versão de produção em série ou em massa. Vejamos o que o próprio Taylor afirma, em sua obra La Direction Scientifique des entreprises, sobre seus estudos.

 

A primeira dessas obrigações (de uma direção científica) é a coleta deliberada, feita por aqueles que fazem parte da direção, da grande massa de conhecimentos tradicionais que, no passado, estava na cabeça dos operários e que se exteriorizava pela habilidade física que eles tinham conseguido pelos anos de experiência. Esta obrigação de coletar a grande massa de conhecimentos tradicionais, de registrá-la, de classificá-la e, em numerosos casos, de reduzi-la finalmente, a leis e regras, é assumida voluntariamente pelos diretores científicos. (Este princípio) pode ser considerado como o desenvolvimento de uma ciência que substitui o velho sistema de conhecimentos empíricos dos operários, conhecimentos que os operários têm e que, em numerosos casos, é tão exato como aquele ao qual a direção chega finalmente, mas que os operários, em novecentos e noventa e nove casos em mil, conservam unicamente no próprio espírito, mas do qual não existe texto explícito, permanente e completo.

Desse modo, Taylor parece admitir que não possui um saber prático o qual será transmitido aos trabalhadores. Seu mérito, assim, é o de sistematizar um conhecimento já incorporado no conjunto de atividades realizadas no interior do espaço fabril. Assim, como afirma Robert Linhart, em sua obra Lênin, os camponeses, Taylor, codificando e “‘classificando’ os conhecimentos adquiridos no processo de trabalho, o taylorismo pretende abertamente constituí-los em um corpo de doutrina ‘exterior’ aos produtores diretos e que possa lhes ser imposto, de fora, pela direção capitalista do processo de trabalho, propriedade privada, de certa forma, de todos os conhecimentos relativos ao processo de trabalho”.

Uma primeira orientação do taylorismo, assim, consistia em separar a concepção e o planejamento da execução das tarefas. Uma pequena equipe, em consonância com a classe patronal, ficaria responsável por planejar todas as etapas do processo fabril. Aos operários restaria a função de executar as atividades na fábrica, numa situação de completa ignorância com relação ao todo da gestão. Mas como alguém pode participar da produção de um bem sem conhecer exatamente o papel que executa? Por meio de uma fragmentação excessiva do processo, de uma simplificação extrema, de uma imbecilização das funções. Não é à toa que o próprio Taylor afirma que o funcionário ideal para o capitalismo seria o homem-boi, por conta de seu vigor físico para o trabalho, somado a uma docilidade ou passividade nas relações hierárquicas da produção.

Mesmo Durkheim, em sua obra Da Divisão do Trabalho Social, condena o excesso de divisão do trabalho, afirmando que o mesmo conduziria a sociedade a um rompimento dos laços de solidariedade orgânica, responsáveis pela coesão social. Marx fala abertamente de um processo de alienação do processo, que é exatamente a ignorância do operário com relação àquilo que realiza enquanto trabalha, e mesmo de um estranhamento com relação ao produto final de seu trabalho.

Além da separação entre o planejamento e a execução, realizava-se a cronometragem gestual, que consistia no estudo das atividades fabris, com a eliminação dos movimentos desnecessários ou prejudiciais à produção, e na fixação de um tempo médio para a execução de cada tarefa na empresa, o que permitia um controle rigoroso do ritmo do trabalhador.

Para incentivar a produtividade, Taylor defendia uma remuneração individualizada, com bonificações para os operários mais produtivos e consequentemente, com a punição ou mesmo o desligamento dos funcionários mais lentos. Essa medida teve, notoriamente, dois efeitos muito claros com relação à classe trabalhadora: aumento constante da produtividade, com a diminuição sensível do tempo médio para a produção de cada bem de consumo capitalista; competitividade e individualismo no interior da classe proletária, pois ao invés de se sentir um companheiro do outro funcionário de determinado, setor, era mais comum que um empregado visse no outro uma ameaça inclusive ao seu posto de trabalho.

Apesar de Taylor não respeitar a classe operária, ele admitia que as relações conflituosas entre as classes envolvidas na produção deveriam ser minimamente amenizadas. Por esse motivo admite que se façam algumas concessões aos operários em nome de uma convivência mais cordial. Nas diversas experiências tayloristas no mundo, percebe-se então as mais diversas ações da classe patronal em nome de uma melhor convivência com o proletariado, como as gestões mais democráticas nos Estados Unidos, o lazer no espaço fabril na Itália fascista ou mesmo o embelezamento das empresas no caso da Alemanha nazista. Todas essas medidas são tomadas, na verdade, para minimizar as reações dos trabalhadores contrárias às políticas de gestão implantadas mundialmente nesse período.

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