A formação do Estado moderno foi um processo longo e profundamente marcado por rupturas estruturais que transformaram a Europa entre os séculos XIV e XIX. Esse percurso começa com a crise do feudalismo, um sistema baseado na fragmentação do poder e na dependência pessoal entre senhores e servos, que entrou em colapso diante de transformações econômicas, sociais e demográficas. A partir do século XIV, a Europa foi abalada pela Peste Negra, que entre 1347 e 1351 dizimou cerca de um terço de sua população. A drástica redução da mão de obra elevou o valor do trabalho camponês e enfraqueceu a autoridade dos senhores feudais, permitindo que muitos servos negociassem melhores condições ou migrassem para as cidades em busca de novas oportunidades.
Paralelamente, o renascimento comercial e urbano, impulsionado desde o século XII, mas intensificado nos séculos XIV e XV, transformou cidades como Veneza, Gênova, Bruges e Florença em centros dinâmicos de comércio. A burguesia mercantil, fortalecida economicamente, passou a demandar estabilidade jurídica, padronização monetária e segurança para suas atividades. As feiras internacionais, como as de Champagne, integraram mercados regionais e ampliaram a circulação de mercadorias. Esse cenário de mudança também provocou tensões sociais expressas em revoltas como a Jacquerie, na França em 1358, a Revolta dos Camponeses na Inglaterra em 1381 e o levante dos Ciompi em Florença em 1378 – 1382, todas evidenciando o desgaste da ordem feudal.
Além disso, conflitos prolongados, como a Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra (1337–1453), exigiram a formação de exércitos permanentes, sistemas fiscais centralizados e maior controle político, contribuindo para o fortalecimento das monarquias nacionais. Assim, a crise do feudalismo abriu espaço para a centralização do poder e para o surgimento do Estado moderno.
Nesse contexto, entre os séculos XVI e XVIII, consolidou-se o Estado absolutista, que representou uma ruptura com a fragmentação feudal e uma etapa decisiva na construção da soberania estatal. O absolutismo encontrou sua expressão mais emblemática no reinado de Luís XIV da França, o “Rei Sol”, cuja corte em Versalhes simbolizava a concentração do poder real e o controle sobre a nobreza. Na Inglaterra, monarcas como Henrique VII fortaleceram a autoridade real após a Guerra das Rosas, enquanto na Espanha os Reis Católicos, Isabel e Fernando, unificaram o território e criaram instituições centrais como a Inquisição e o Conselho Real. Na Rússia, Pedro, o Grande, modernizou o Estado e ampliou o poder autocrático.
Esse modelo político foi sustentado por teóricos como Jean Bodin, que formulou o conceito de soberania indivisível, e Thomas Hobbes, que em Leviatã (1651) justificou o poder absoluto como necessário para evitar o caos do “estado de natureza”. A centralização absolutista se apoiava em exércitos permanentes financiados por impostos nacionais, burocracias profissionais, padronização de leis e moedas e mecanismos de controle social. Importante notar que o absolutismo não atendia apenas aos interesses da monarquia: ele também favorecia a burguesia, que via na centralização estatal uma garantia de estabilidade para o comércio e para a expansão colonial.
Com o tempo, porém, o absolutismo passou a ser contestado por movimentos que defendiam limites ao poder real e maior participação política. A Revolução Inglesa do século XVII, culminando na Bill of Rights de 1689, estabeleceu limites constitucionais ao monarca. A Independência dos Estados Unidos, em 1776, introduziu princípios republicanos e constitucionais que influenciariam o mundo ocidental. A Revolução Francesa de 1789, por sua vez, derrubou o absolutismo e proclamou os direitos do cidadão, consolidando a ascensão do Estado liberal.
O Estado liberal, inspirado pelo Iluminismo, baseou-se na separação de poderes defendida por Montesquieu, nos direitos individuais formulados por Locke e na economia de mercado teorizada por Adam Smith. Contudo, apesar de seu discurso universalista, o liberalismo histórico apresentou contradições profundas. O sufrágio censitário excluía mulheres, trabalhadores pobres e populações colonizadas, revelando que a igualdade proclamada era restrita aos proprietários. A liberdade econômica favoreceu a acumulação de capital nas mãos da burguesia e intensificou a exploração da classe trabalhadora durante a Revolução Industrial, fenômeno criticado por autores como Karl Marx e Friedrich Engels. Mesmo pensadores liberais como John Stuart Mill, em sua fase mais social, reconheceram os limites do laissez-faire.
Além disso, o Estado liberal afirmava-se neutro, mas na prática protegia a propriedade privada acima de outros direitos e reprimia movimentos operários, como demonstrado na violenta repressão à Comuna de Paris em 1871. Também sustentou a expansão colonial europeia na África e na Ásia, justificando-a sob o discurso civilizatório. Assim, o liberalismo consolidou uma nova forma de dominação: menos explícita que o absolutismo, mas igualmente excludente.
A formação do Estado moderno, portanto, é resultado de um processo histórico complexo que envolve o colapso do feudalismo, a centralização absolutista e a ascensão — com seus limites — do liberalismo. Cada etapa respondeu a tensões específicas de seu tempo, mas nenhuma eliminou completamente as desigualdades estruturais. Por isso, a crítica ao liberalismo permanece essencial para pensar o papel do Estado e para buscar modelos políticos capazes de conciliar liberdade, igualdade e justiça social.